terça-feira, 19 de julho de 2011

Quem descobriu a América foi...

   A palavra que falta ao título é Colombo. Certo? Seria, mas de acordo com Garcia Redondo essa história não está bem contada. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras, Garcia Redondo foi formado em engenharia, foi jornalista e também professor. Em 1911, durante a primeira conferência organizada pelo Centro Republicano Português de São Paulo, apresentou seu discurso sobre a questão da descoberta da América.

   Com o título original "O Descobrimento do Brazil -  Prioridade dos Portuguezes no Descobrimento da América" e baseado no livro "A Descoberta do Brazil" de Faustino da Fonseca, Garcia Redondo apresentou fatos que comprovariam que não foi Cristovão Colombo que descobriu a América e tão pouco Pedro Alvares Cabral teria descoberto o Brasil, mas esse ultimo ficará para outra oportunidade. Vamos aos fatos que segundo G. Redondo provam que a glória do descobrimento da América foi usurpada dos portugueses. Os  fatos seriam os seguintes:
  • 1436 - André Bianco registra em suas cartas e no seu portulano (antiga carta náutica Européia) as descobertas da Antilia (Brasil), Mar de Braga e Mar de Sargaços;
  • 1447 - Um navio parte do Porto e vai até a Groenlândia onde os marinheiros desembarcaram;
  • 1448 - André Bianco registra nas suas cartas a existência do Brasil à distância de 1500 milhas compreendidas entre as ilhas de Cabo Verde e o Cabo de São Roque;
  • 1452 - Diogo de Teive e seu filho João descobrem a Ilha das Flores e chegam a latitude da Terra do Lavrador região noroeste da América do Norte;
  • 1472 - Descobre João Vaz de Corte Real a Terra de João Vaz, ou Terra Nova, ou Terra dos Bacalhaus, na América do Norte;
  • 1473 - 1484 - Afonso Sanches descobre as Antilhas;
  • 1487 - Viagem à América de Fernão Dulmo e João Affonso Estreito, acompanhados de Martim Behaim, que registrou, depois, no globo terrestre que construiu e no mapa erário real português, a existência da península da Flórida, das Antilhas e do Golfo do México;
  • 1492 - Descoberta, entre 30 de janeiro e 14 de abril, da terra do Lavrador, por João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.
    A primeira viagem de Colombo só foi realizada em 3 de agosto de 1492. Então por que a glória do descobrimento da América foi dada a Colombo?  Primeiro temos que entender quem foi e o que fez Cristovão Colombo.  Nascido em 1450, em Genoa, filho de operários, exercia a profissão de tecelão e até os 23 anos de idade sabia apenas ler e escrever sem que, até então, tivesse tido contato com práticas náuticas. Mudou-se para Savone onde abriu uma taverna, mas a sorte não lhe foi favorável. Em 1473 foi para Portugal e fixou-se na ilha da Madeira , onde ainda viria a se casar com a filha de um marujo chamado Bartolomeu Perestrelo, já falecido. Nos documentos, instrumentos e mapas do sogro começou a aprender sobre náutica e tomou conhecimento da localização exata das Antilhas quando em sua hospedaria esteve Afonso Sanchez, que foi quem as descobriu.

     Estes episódios são relatados por Bartolomeu de Las Casas, amigo e companheiro de Colombo, em seu livro "Histórias das Índias" que ainda diz: 
"eram instrumentos e escritos e pinturas (cartas e mapas), convenientes à navegação, os quais deu a sogra ao dito Colombo, que com vista deles muito se alegrou"
     E acrescenta:
"com estes se crê haver sido instigada a sua natural inclinação"
   No entanto ainda faltava a Colombo a prática da navegação e essa foi obtida quando se propôs a acompanhar navegantes portugueses que se dirigiam à África. Foi em Portugal que Colombo aprendeu a navegar e teve conhecimento exato das terras do ocidente. E depois de adquiridos esses conhecimentos teve  a idéia de descobrir o caminho para a Índia pelo ocidente, encontrando a terra antes descoberta por Afonso Sanches.

     Para realizar o seu feito procurou o apoio do rei D. João II que recusou seu pedido por já saber o que havia no ocidente, levando o genovês a bater às portas de Castela. E munido dos mapas e documentos copiados de Portugal, Colombo, mostrou aos reis de Castela que não partiria para descobrir novas terras e sim para tomar posse para a Espanha de terras antes descobertas pelos portugueses. Colombo estava muito endividado e precisava sair de Portugal e achar recursos que o ajudassem a resolver seus problemas financeiros.

     O rei de Portugal escreveu uma carta a Colombo solicitando seu retorno ao país, garantindo-lhe que ele não seria preso ou mal tratado por suas dívidas. E de posse dessa carta ele volta a Portugal e oferece ao rei seus serviços e D João II aceita, não para aproveitar-se dele, mas para tentar impedir que por meio dele Castela se apropriasse das terras que a Portugal já pertenciam. Os reis de Castela já haviam dado a Colombo a quantia de 14 mil maravedis em 1487, mais 3 mil pouco depois e outros 3 mil em junho de 1488. O grande descobridor explorou o apoio dos dois reinos até obter a aparelhagem necessária para realizar sua empreitada. Prova disso é, também o fato, que na Espanha assinava Colon e em Portugal e Itália como Colombo.

    A Espanha resolve assinar um tratado com Colombo e o fornece as três caravelas que ele usaria para cruzar o Atlântico. Entre os termos do acordo estavam as seguintes vantagens: receberia o grau de cavaleiro da espada dourada, os cargos de almirante mor do mar oceano, de vice-rei e governador das terras que descobrisse, a décima de todas as rendas, e o direito de concorrer com o oitavo das despesas de todas as frotas recebendo o oitavo dos lucros. Muito diferente dos precursores portugueses que equipavam por conta própria as caravelas e ofereciam ao rei de Portugal as terras descobertas sem pedir favor em troca.

    Não contente com o que já havia conseguido, o grande Colombo, angariou para si a quantia de 10 mil maravedis de uma cláusula do tratado que dizia que tal valor seria dado ao primeiro marinheiro que anunciasse terra ao comandante. O marinheiro Rodrigo de Triana foi quem conseguiu ver primeiro a terra, mas ao anunciar ao capitão Colombo este afirmou que na noite anterior já havia visto uma luz e que portanto a prioridade era dele. Esse Colombo!

   Muitos que estudaram a vida de Cristovão Colombo enaltecem sua caridade cristã, mas esquecem de mencionar que na sua primeira viagem as Antilhas nem padre ele levou, que ao chegar ao golfo de Samaná atacou os indígenas em um brutal derramamento de sangue, que como não pôde enviar aos reis de Castela metais e pedras preciosas ou riquezas em especiarias, enviou à Espanha navios carregados de escravos para serem vendidos e com o preço pagar as despesas da viagem.

   Durante o tempo que governou a Hispanhola, 1493 a 1496, onde hoje é o Haiti, exterminou um terço da população nativa e quando Pedro Margarite reconheceu a ilha de Cuba ordenou que mutilasse os indígenas  que lá encontrasse e, ainda, ordenou a Hojeda que fosse prender o cacique Cahonaboa dando-lhe instruções que o atraísse para uma armadilha. Essa era a cristandade de Colombo.

   Nem seus financiadores concordaram com a conduta de Colombo e em seu retorno da segunda viagem à América o submeteu a um tribunal e quando ele regressou da terceira, após dois meses de prisão, mandou que viesse a bordo preso a uma grilheta, como se fosse um bandido. Colombo morreu em 1506, sempre ignorando que a terra que tomou para a Espanha não era a América e sim a Ásia, e nem depois de morto conseguiu descanso, pois seus ossos andaram de Valladoli para Sevilha, depois para o Haiti, depois para Cuba, de novo, para a Espanha.

   Então por que os portugueses não reivindicaram essa conquista tomando da Espanha as terras apropriadas por Colombo? Porque quando Colombo voltou à Espanha, em 1493, os reis de Castela tinham obtido do papa Alexandre VI a bula pontifícia Inter Caetera que estabelecia que todas as terras descobertas a partir de um meridiano traçado a 100 léguas a oeste da ilha de Cabo Verde seriam de posse da Espanha. Com isso Portugal não podia nem reivindicar as terras descobertas a leste da linha e nem chegar ao seu principal objetivo  que era a Índia. Insatisfeito o rei D. João II foi negociar diretamente com Fernando de Aragão e Isabela de Castela que se aumentassem para 270 léguas para oeste a linha do meridiano o que permitiu reivindicar para Portugal as terras recém-descobertas a leste da linha e ficar com o controle da África , Ásia e o leste do Brasil. A esse acordo realizado em 1494 foi dado o nome de Tratado de Tordesilhas. Essa é, segundo Garcia Redondo, a história do "descobrimento" da América.


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